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Viagem para tão longe


anonimo incognito - tão longe

Velho_Amigo: Por que ir pra tão longe?
Anônimo_Incógnito: Porque eu preciso ir pra longe de tudo... 
Velho_Amigo: Tudo o quê?
Anônimo_Incógnito: Não sei... Creio que, de longe, possa reconhecer tudo melhor...
Velho_Amigo: Que resposta mais vaga... Aposto que você tem uma melhor.
Anônimo_Incógnito: Tenho uma mais egocêntrica: quero ser percebido...  Como presença nova aonde irei e ausência nova de onde parto... Deixar marcas em outros lugares, outras vidas e, ao mesmo tempo, sentir uma saudade insuportável de mim se fazendo aqui, gritando que eu tenho um lugar pra voltar...
Velho_Amigo: Mas tudo tende a se adaptar à nova realidade. Quando você voltar, poderá apenas descobrir que, sem você, nada mudou... Exceto aquilo pelo que te substituíram.
Anônimo_Incógnito: É o tipo de coisa que é melhor descobrir o quanto antes, não...?
Velho_Amigo: Parece resignado com isso... Confesso que esperava mais inconformação de sua parte.
Anônimo_Incógnito: Sei que esperava... Tem sempre alguém esperando, inclusive eu, inclusive esperando o pior... Pois pretendo ir pra tão longe que expectativa alguma me poderá me alcançar... Um lugar onde não esperam nada de mim e não há nada à minha espera pra ser feito... Nenhum vício, rotina, amarras com qualquer passado...
Velho_Amigo: O que fazer num lugar onde não esperam nada de você?
Anônimo_Incógnito: Me refazer... Do zero... Reconstruir-me uma pessoa melhor...
Velho_Amigo: Isso parece nobre.
Anônimo_Incógnito: Só parece, pois  também me vou pra não ter que ser nobre... Não ter que ser nada... Quero me redescobrir confrontando o novo, testando meu limites, meu poder de adaptação, me ver diante de um novo repertório de escolhas de vida... E então me certificar de que vivo de fato uma escolha...
Velho_Amigo: E o que você escolheria se pudesse escolher qualquer coisa?
Anônimo_Incógnito: Não sei... Qualquer coisa parece tão pouca coisa diante do meu limitado conhecimento das coisas neste instante... 
Velho_Amigo: Não importa o quanto se conhece, deve-se escolher sempre aquilo que ama. Ou você também não sabe o que ama?
Anônimo_Incógnito: A gente sempre acredita que sabe... Mas amarei ainda as mesmas coisas...? Amarei ainda as mesma pessoas depois de conhecer tão mais pessoas...? Ainda amarei você ou ainda pensarei em voltar...?
Velho_Amigo: ...
Anônimo_Incógnito: Perdoe-me, meu amigo, não quis por nossa amizade em dúvida... É que me sinto tão perdido aqui, neste lugar de sempre, o qual conheço em cada mínima vereda... E, se for pra sentir a angústia de estar perdido, que seja mirando horizontes novos em qualquer direção que eu me volte... Quero me procurar em lugares nos quais nunca me procurei, ser tocado como nunca fui...
Velho_Amigo: Insisto, meu amigo: por que ir pra tão longe?
Anônimo_Incógnito: Porque preciso questionar tudo...
Velho_Amigo: ?
Anônimo_Incógnito: Pondo-me longe de tudo que amo... Fora do alcance dos ecos, dos sonhos, do mais leviano pensamento... Assim, não poderei ser ouvido, nem no volume de um sussurro, quando ousar questionar todo esse amor...
Velho_Amigo: ...

P.S.: Há dias em que não acredito no amor... Poupo-te desses dias... Por amor, acredite...