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Assombrações

Anônimo Incógnito: assombrações

(dois amigos online)

Velho_Amigo: Tá acordado?
Anônimo_Incógnito: Absurdamente acordado.
Velho_Amigo: Sem sono aqui também.
Anônimo_Incógnito: O meu não tem muita afinidade com a madrugada.
Velho_Amigo: É a hora que o passado me assombra. 
Anônimo_Incógnito: E com que ele anda te assombrando?
Velho_Amigo: Com velhas coisas que nunca mais serão. 
Anônimo_Incógnito: Ah, a melancolia dos nuncamais...
Velho_Amigo: Te assombra também?
Anônimo_Incógnito: Os nuncamais, os queestoufazendodaminhavida, os comotudoissovaiacabar...
Velho_Amigo: É, eles se revezam. Hoje deve ser a noite dos nuncamais. 
Anônimo_Incógnito: Alguma saudade em particular?
Velho_Amigo: Meus avós.
Anônimo_Incógnito: ...
Velho_Amigo: Depois que eles se foram, minha infância parece ter se perdido de mim.
Anônimo_Incógnito: Os meus me olham de seus retratos ainda sem saber que se foram. E me convencem.
Velho_Amigo: Pois é... Todo o passado me olha sem saber que eu ainda sou o mesmo.
Anônimo_Incógnito: Bando de íntimos estranhos.
Velho_Amigo: O menino que fui mal me reconhece. E é tanto que preciso adverti-lo sobre o que irá se passar conosco...
Anônimo_Incógnito: Mas só você pode ouvi-lo, jamais o contrário.
Velho_Amigo: E o que aquele pequeno ingênuo teria a me dizer?
Anônimo_Incógnito: Quem sabe algo importante que tenha se perdido junto da ingenuidade...
Velho_Amigo: A virgindade?
Anônimo_Incógnito: ...
Velho_Amigo: Sonhei com o Pedrinho um dia desses.
Anônimo_Incógnito: Pedrinho? Do time lá da antiga vizinhança?
Velho_Amigo: Ele mesmo, nosso inesquecível lateral esquerdo. Sonhei com a gente ainda criança, saindo do campinho, indo tomar um guaraná no bar do Seu Tito, conversando, como sempre...
Anônimo_Incógnito: A última vez que o vi foi há anos, ainda antes de me mudar.
Velho_Amigo: Soube do que aconteceu com ele?
Anônimo_Incógnito: É, eu soube...
Velho_Amigo: Pois é...
Anônimo_Incógnito: Mas o que conversaram no sonho?
Velho_Amigo: Nada que faça sentido agora.
Anônimo_Incógnito: Hum.
Velho_Amigo: O barato mesmo do sonho é que eu sentia aquela amizade no tempo presente, não como lembrança. Eu era perfeitamente o menino que fui e, ele, perfeitamente o nosso amigo de 18 anos atrás. 
Anônimo_Incógnito: ...
Velho_Amigo: Fui de novo algo que, acordado, nunca mais... 
Anônimo_Incógnito: Nunca mais?
Velho_Amigo: ...
Anônimo_Incógnito: Pra mim, você ainda é.
Velho_Amigo: Por isso é bom manter os velhos amigos: pra seguir nos reconhecendo. 
Anônimo_Incógnito: Apesar da barriga e da calvície...
Velho_Amigo: E dos filhodap... que são.
Anônimo_Incógnito: Haha.
Velho_Amigo: Hehehe.
Anônimo_Incógnito: ...
Velho_Amigo: ...
Anônimo_Incógnito: Um dia isso deixa de ser?
Velho_Amigo: Se deixa, espero que seja minha última assombração.

P.S.: Num presente de velhos amigos, o passado acaba em risos...